Manoel Cupim
Luiz é brabo. Mas eu sou mais. Ao menos não sou eu que me acho. Quando o tenente chega aqui ele não tem medo de admitir que eu sou o único capaz de lhe enfrentar aqui. “Tomara, Manoel, que você não morra porque aqui ninguém tem coragem de me enfrentar”. Mal sabe ele.
Um dia eu tomei a coragem de ir lá falar com Luiz. Esse deputado me devia como deve historicamente ao povo quilombola os donos de tudo. Fui lhe dizer não umas verdades, mas cobrar direitos tão importantes pro João Rodrigues, o quilombo que me pariu e pelo qual eu lutei a vida inteira.
Ainda ontem, na beira do rio, sentido o cheiro da moqueca de robalo, peixe caro que hoje é caro demais, eu me lembrei da cena. Véi Silvino, ainda forte, me aconselhou pra ter cuidado. Mas eu sou forte feito leão, meu povo veio dos tombeiros e um deles a gente afundou aqui mesmo em Itacaré. De lá veio o João Rodrigues, o Fojo e tantos outros.
Fui lá. Era uma fazenda distante, dessas que a gente andava até cansar e depois ainda tinha que andar mais. Na entrada, homens na cancela com cara bastante fechada e cor clara. “Amigo”, começava eu, apenas acompanhado de Toinho de Ana. “Quero falar com o deputado Luiz”.
Os homens, fortemente armados, já não escondiam mais suas armas. Eram trabucos e armas novas, dessas que matam todo dia gente da minha cor. Nem me perguntaram quem queria falar com seu Luiz, o deputado. Um rapaz mais jovem, peneirando os 40, se apresentou com a arma em punho.
“Sou Luiz, quem quer falar com ele”. Finalmente ele quis saber quem, logo depois de me ameaçar, meu filho. Não deu outra. Toda aquela força que eu tenho e não sei de onde vem, mas sei que é quilombola, lhe enfrentou. “O senhor, eu sei, pode ser qualquer pessoa que o senhor quiser, mas Luiz Domênico o senhor não é não”, lhe disse eu.
Eu senti que o tal rapaz, cercado de homens fortemente armados, tremeu na base. Quem tem medo tem.
Naquele dia Luiz me recebeu. Eu expliquei passo a passo a minha ida e o meu povo que esperava por anos o básico, uma luz, uma água encanada, um meio de transporte seguro. Ele, como quem temesse a força que eu joguei na direção de seu filho fortemente armado, que se passava por ele, apenas assinou o documento em silêncio.
“Ninguém tem coragem de me enfrentar”. Eu vivo rindo sozinho disso.
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